O meu Twitter

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Irlanda do Norte - Saudades de casa matam 4 operários - 25 Agosto 2009

Acidente: Quinto português está hospitalizado mas não corre risco de vida

O sonho de uma vida melhor terminou anteontem ao final da tarde para quatro emigrantes portugueses que estavam a trabalhar na construção de um aeroporto em Dublin, na República da Irlanda. Viajavam para Belfast (Irlanda do Norte), onde pretendiam comprar produtos alimentares portugueses, tentando, assim, aliviar as saudades de casa.


Pedro Tavares, de Sever do Vouga; Ricardo Alves de Aveiro; Martinho de Almeida, de Castro Daire; e Luís Miguel Lopes, de Oliveira do Hospital, empregados da empresa Martifer, faleceram num acidente de viação, depois do carro em que seguiam chocar contra um camião, nos arredores de Newry. Tiveram morte imediata. Apenas Paulo Branco, um quinto ocupante da viatura, residente em Águeda, escapou com vida à tragédia. Foi transportado em estado grave para o hospital, mas está fora de perigo.
"Já estava a adivinhar a morte", diz, entre lágrimas, José Lopes Conceição, que só teve a confirmação de que o filho tinha falecido às 14h00 de ontem. Horas antes soubera do trágico acidente e temia que a má notícia lhe batesse à porta. Residente em Alvôco das Várzeas, concelho de Oliveira do Hospital, Luís Miguel Lopes, de 33 anos, era serralheiro e trabalhava desde Janeiro para a Martifer. "Foi para lá ver se ganhava mais qualquer coisa, mas afinal foi buscar a morte", diz o pai, que recorda a última conversa no domingo à tarde, antes da viagem fatal. "Disse que estava bem e que regressava a casa, de férias, no dia 5."
As histórias das famílias repetem-se. Também na pequena freguesia de Silva Escura, em Sever do Vouga, se chora a morte de Pedro Tavares, de 34 anos. O cenário é idêntico em Castro Daire e em Águeda, locais de origem de outros dois trabalhadores que perderam a vida.
Os corpos foram reconhecidos por um responsável da Martifer e depois por familiares que se deslocaram à Irlanda. Deverão chegar nos próximos dias a Portugal.

"PODIA TER SIDO QUALQUER UM"
O ambiente entre os mais de cem trabalhadores da Martifer que constroem o novo aeroporto de Dublin era, ontem, de grande pesar. O CM falou com um dos operários, ainda muito abalado com a tragédia da véspera. "Foram eles mas podia ter sido qualquer um de nós. Para mim é complicado falar sobre a perda de pessoas que me eram muito próximas", disse Ilídio Martins, de 38 anos. Ontem, o dia foi de luto e por isso a obra esteve parada. "Foi um acidente estúpido, sem explicação. Custa muito ver partir amigos", sintetizou Ilídio.

PORMENORES

"ESTOU BEM, MÃE"
Mal souberam do desastre, muitos operários que trabalham na Irlanda ligaram para a família. "Mãe, houve um acidente grave aqui mas eu estou bem", disse Mário Pinto à mãe.

PONTO NEGRO
O local onde ocorreu o acidente é considerado um ponto negro e muito perigoso para quem não conhece as estradas da região. Nas vias de Newry já morreram este ano 78 pessoas. No fim-de--semana houve mais dois acidentes naquela zona.

NO MESMO BAIRRO
Os operários portugueses que trabalham no aeroporto de Dublin residem em casas localizadas no mesmo bairro. Quando não trabalham ao fim-de-semana viajam pela região.

HORA DE LUTO
A Martifer informou que o acidente aconteceu "fora do horário e local de trabalho". Em comunicado, a empresa sublinha "estar de luto" porque "perdeu quatro amigos".

"A MINHA MÃE ESTÁ EM CHOQUE"
Na pequena freguesia de Silva Escura, em Sever do Vouga, a família já tinha preparado tudo para receber Pedro, de 34 anos. Os irmãos combinaram passar as férias numa praia próxima. Ontem de manhã, quando receberam a notícia, a tristeza abateu-se sobre a família. A mãe entrou em desespero, Pedro era a sua força, o seu amparo. "A empresa ligou para uma das minhas irmãs. A minha mãe está desesperada, ele dava-lhe muita força. Éramos seis irmãos, sempre nos demos muito bem e éramos bastante unidos", recorda um dos irmãos.

VIVIAM COMO UMA SEGUNDA FAMÍLIA
O ambiente entre os portugueses a trabalhar em Dublin é descrito como "muito bom". "Estamos todos destroçados porque aqui somos todos uma família", disse ao CM um trabalhador que partilhava a casa com uma das vítimas mortais. Apesar de na Irlanda também se conduzir pela esquerda, o condutor era considerado "experiente".

"FOI MORRER TÃO LONGE DE CASA"
A notícia da morte de Martinho de Almeida, de 45 anos, chegou aos familiares bem cedo através de um funcionário da Martifer. "Ele não teve sorte nenhuma nesta vida e acabou por morrer tão longe de casa", desabafou ao CM Prazeres Almeida Rodrigues, irmã e com quem ele passava mais tempo quando estava de férias.
Divorciado e com um filho – que já viajou para a Irlanda –, Martinho de Almeida, natural de Solgos, Castro Daire, aceitou em Fevereiro o desafio de emigrar "para ganhar mais dinheiro e pagar o carro que tinha comprado". Na última vez que esteve na aldeia, confidenciou à irmã que "até gostava de trabalhar" na Irlanda mas que "quando resolvesse a questão do divórcio" voltava para a aldeia. Há um mês despediu-se da irmã anunciando que já tinha um bilhete de regresso em Setembro. "Ele tinha uns assuntos a tratar em Portugal e vinha cá no próximo mês. Não merecia morrer desta forma. A sorte nunca o acompanhou", afirmou a irmã, lavada em lágrimas. Também os vizinhos não se conformam com a morte do Martinho. "Era um homem trabalhador e amigo de todos. A aldeia chora a sua morte e está de luto", diz Valdemar Duarte.

NOTAS

REGRESSO: ANSIOSO POR FÉRIAS
José Carlos Marques era vizinho e colega de uma das vítimas mortais, mas regressou da Irlanda há uma semana. Da última vez que falou com o amigo "ele estava ansioso para vir de férias"

COMPRAS: PRODUTOS NACIONAIS
Era habitual os trabalhadores aproveitarem os domingos para irem a Belfast comprar produtos alimentares portugueses, desde bacalhau a ingredientes para o cozido à portuguesa

INQUÉRITO: POLÍCIA INVESTIGA
A polícia irlandesa investiga as circunstâncias do acidente e procura testemunhas, porque o condutor do camião está em estado de choque e o operário que sobreviveu não consegue falar.


Veja o video da RTP:

Para mais informações visite o site CM.

Sem comentários:

Pesquisar