
Seixal: Um atirador detido, doze identificados e armas apreendidas
Dois carros e caixotes do lixo em chamas foram isco perfeito para atrair a polícia às ruas estreitas do bairro. Segunda-feira à noite estava em marcha uma emboscada ao "inimigo" da PSP, que se limitou a dar resposta aos focos de incêndio na Quinta da Princesa, Seixal, mas foi recebida com tiros, pedras e cocktails molotov. Os confrontos prolongaram-se até à tarde de ontem – com equipas do Corpo de Intervenção a responder a tiro.
Tudo porque, na noite de domingo, uma patrulha da PSP interpelou um grupo de jovens no bairro. Desconfiaram que uma moto fosse roubada e a troca de palavras não se fez esperar. Alguns dos jovens dizem ter sido agredidos. E a vingança foi servida na noite seguinte, com dois carros incendiados na praceta 25 de Abril. "Pegaram fogo aos carros para atrair a polícia", confessa ao CM um morador, que prefere o anonimato.
Tudo porque, na noite de domingo, uma patrulha da PSP interpelou um grupo de jovens no bairro. Desconfiaram que uma moto fosse roubada e a troca de palavras não se fez esperar. Alguns dos jovens dizem ter sido agredidos. E a vingança foi servida na noite seguinte, com dois carros incendiados na praceta 25 de Abril. "Pegaram fogo aos carros para atrair a polícia", confessa ao CM um morador, que prefere o anonimato.
Objectivo conseguido: um carro-patrulha, mal entrou no bairro, foi alvo de um cocktail molotov. Chegaram reforços e houve uma acesa e prolongada troca de tiros – as seis entradas do bairro foram de imediato controladas pela PSP, que ontem se fez representar com cerca de trinta agentes da Unidade Especial de Polícia. O contingente diminuiu com o passar das horas.
A praceta do Lobito, bem no interior do bairro, esteve até ao fim da tarde de ontem sitiada – com os moradores a entrar e a sair da Quinta da Princesa somente após revista policial. A PSP montou um perímetro de segurança no local, precisamente onde na madrugada de ontem foram arremessados os cocktails molotov e pedras e disparados dezenas de tiros contra os agentes da polícia.
No chão, era possível encontrar os vários invólucros de balas de calibre 9 mm, cartuchos de caçadeira, garrafas partidas, pedras soltas da calçada, contentores queimados. A PSP, através do intendente Leitão, do Comando de Setúbal, diz que se viu obrigada "a disparar alguns tiros em troca". O balanço aponta para a detenção de um homem e identificação de 12. Foram ainda apreendidas algumas armas.
PJ RECOLHEU PROVAS EM CASA DO SUSPEITO
Um prédio na praceta do Lobito, mesmo no centro do bairro, mereceu especial atenção dos agentes, pois foi nele que grande parte dos jovens se refugiaram assim que começaram os desacatos. A Polícia Judiciária esteve no local e recolheu mesmo indícios no interior de uma residência, ao que tudo indica do suspeito que foi detido. No seu interior, os inspectores descobriram cocktails molotov, dos quais retiraram impressões digitais. Aliás, foi este método que, em Maio, no bairro da Bela Vista, em Setúbal, permitiu às autoridades deter um dos principais desordeiros, depois de este ter deixado uma impressão digital numa garrafa.
Também os dois carros incendiados mesmo à entrada do bairro da Quinta da Princesa foram ontem alvo de uma perícia das autoridades.
"ELES VÊM PARA MATAR E NÃO PARA AJUDAR"
Os jovens do bairro manifestavam-se indignados com a resposta brutal da polícia. "Eles dizem que só disparam balas de borracha, mas acham que estas balas que tenho na mão são de borracha?", começa por perguntar Ricardo Pereira, morador no bairro da Quinta da Princesa. "Estas balas são bem verdadeiras. Eles vêm para nos matar e não para ajudar. Não podem fazer justiça pelas próprias mãos. Aqui ninguém nos respeita, fazem o que bem lhes apetece."
No bairro, os jovens dizem que apenas a polícia disparou tiros. "Da parte dos moradores só houve pedradas e arremesso de garrafas, mas tiros é mentira", garante Luísa Semedo, uma das jovens que diz ter sido agredida no domingo pelos agentes da PSP.
BAIRRO DE RETORNADOS E JOVENS
O bairro da Quinta da Princesa nasceu no final da década de 1970 através de um Contrato de Desenvolvimento Habitacional entre o Estado e construtores civis. Parte das casas seria vendida e o resto era entregue à Câmara. Segundo o CM apurou, dos 20 edifícios que compõem o bairro, sete (o que corresponde a 208 fogos) foram entregues à autarquia do Seixal, que os destinou ao realojamento de famílias carenciadas dispersas pelo concelho – a maioria retornados ou emigrantes dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa.
De acordo com estudos recentes, actualmente vivem cerca de 1300 pessoas na Quinta da Princesa. A população é maioritariamente jovem – cerca de 30 por cento tem menos de 10 anos –, mas o desemprego e o abandono escolar são uma realidade que afecta muitas famílias. Ao que o CM apurou, são poucos os que usufruem do Rendimento Social de Inserção, mas há famílias a receber pensões de 200 euros.
No que diz respeito a nacionalidades, 41,7% dos habitantes são cabo-verdianos, a comunidade mais representativa, seguidos dos são-tomenses (21%) e angolanos (10%). Apesar de apenas 13,3% dos habitantes de Quinta da Princesa terem nascido em Portugal, mais de 25% tem nacionalidade portuguesa. Nos últimos anos, a comunidade cigana e os emigrantes do Leste da Europa e do Brasil têm vindo a ganhar expressividade. Tal como noutros bairros sociais da área metropolitana de Lisboa, alguns apartamentos têm sido vendidos sem qualquer registo ou alugados a emigrantes recém-chegados.
Para mais informações visite o site CM ou Mais informações.
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